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Memórias de uma casa com varanda

por João Rui Afonso

Era um reino sem banhos. Ou onde os banhos se mantinham escondidos, atrás de reposteiros floridos, antes de se revelarem na dos pais chegarem.

Era um reino onde a sujidade brigava com o sol pelo bronzeado e eu tomava o seu partido, derrapando no pó leve dos caminhos em baforadas amarelas que me cobriam e às amoras.

E era um reino com pratos enormes de batatas fritas que comia na branda luz morena ao abalar da tarde. Aí, sentado no balcão sobre o bardo, as cabras em baixo depois das grades azuis, largava-me a pensamentos ferventes de aventura e fantasia. Depois da noite regressaria o dia e eu voltaria a ser D.Quixote cavalgando as veredas numa bicicleta de pneus furados, cavaleiro negro em guerras de fisga e espada de pau, Neil Armstrong de calção vermelho e bandeira de ceroulas erguida na superfície do monte do cascalho. Ou então seria apenas eu — chorando pelo arranhão abaixo do joelho e por o João Manuel não me deixar ser o He-Man e casar com a irmã, a Anita, que fazia de Sheera — e procurarei nos braços fortes da Avó Maria consolo para a dor.

São dessa idade as geografias míticas que me fazem, o picoto, a horta d’além, o lajeado, a eira, a horta do pato, a gruta do três, lugares de existência terrena mas significações íntimas, palavras que bem podiam ser outras, coração, baço, pulmões, cérebro, alma. É das memórias eternas desse tempo, fábulas ou realidades, que nasce a água límpida que me forma os sorrisos, não os assustados e medrosos ou os convencidos e petulantes, não os arrogantes ou convenientes, não os condescendentes, mas aqueles que tão poucos tiveram a paciência e coragem de ir desenterrando de mim, libertando em mim, os inocentes, os desajeitados, os felizes.


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