O sonho dos outros
por Guilherme José Pires
Caminham algures por sobre as mágoas de um horizonte sem azuis.
Têm vento nos bolsos, os cabelos deitados como ramos de magras árvores pendulares no vazio, um si bemol, um dó maior, leves e caídos nas notas escuras.
Fotografam aves de rapina.
Gestos delicados compõem harmonias de condor.
Descem a sós, usam as costas das mãos para enxotar o pó das mangas e dos ombros da camisa, e muito do que perdem enquanto ocupam o pensamento com movimentos triviais é tudo o que lhes escapa nas certezas e nas verdades em que acreditam.
Encontram-se nos recantos de Verão às horas da trovoada seca com outros seres inventados, para trocar pertences e habitar a chuva.
Rombos, relâmpagos, estoiros, marés vivas, dias tapados de perigos, estalidos de vidros e talheres, rasgões, tremuras, corvos trovadores, penas escuras em banho-maria nos restos de café, bafos lentos do planeta, burburinho, vagar.
É então que soltam os animais de observar a tarde e com eles aprendem a esticar o pescoço, a decorar as elipses perfeitas das andorinhas e a ouvir.
Enfiam as carapaças pela cabeça, calçam as escamas, afiam a paciência.
E eis no horizonte um certo azul madrugador que regressa, tardio, a contratempo.
Deixa-se acompanhar de farrapos para compor reticências.
Um horizonte quase azul com pedaços de branco quase nuvens.
Os que sonham são lestos, mas lentos, a sair da noite para o sono despertador.
Enquanto partem grito por eles e atiro-lhes uma coisa de aumentar palavras.
Não sei se a utilizam para ler com pormenor quem mais gostam de ler, mas nos sonhos que germinam no momento em que a porta se fecha e eles se desfazem encontro-os sempre vestidos para o pequeno-almoço, meia de leite e bolo seco quietos sobre a mesa redonda de metal, livro de papel ou jornal desportivo — e conta-fios no colo.
Querem perceber melhor os objectos que existem.
Julgo que os ajudo.
De nariz espalmado no vidro qualquer um se imagina gigante, todo possibilidades, qualquer algo pelo preço de um mero pensamento, o pensar é um novelo barato.
Mas o cinzento vai tomando o lugar da cor.
Duas pálpebras descendentes.
A luz que se desfaz como ramagens de fio de coco.
Breves rombos na escuridão, esparsos, burburinho, quietação.
