iA


5.º C

por Sandro William Junqueira.

Vejam isto:
A mulher magra, que habita no quinto andar, um apartamento com escassa mobília, inicia um choro.
O espadarte ficou salgado?
As unhas pintadas de azul não combinam com os sapatos?
Esqueceu-se de comprar o amaciador para a roupa?
O cão da vizinha perturbou-lhe o sono?
A mulher magra desconhece a razão concreta.
Sabe do que precisa.
Era o que mais faltava.
Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento.
A mulher magra chora.
Corridos cinco minutos o nível do pranto já chega aos rodapés.
10 centímetros.
Se a mulher magra não encontrar a razão concreta, dentro de meia hora a enchente alcançará as gavetas.
76 centímetros.
Depois os armários.
Dentro de uma hora a sirene do carro dos bombeiros ecoará por todo o bairro.
Uma inundação, alguém gritará, num rés do chão.
Mesmo aí, a mulher magra não cessará.
Arregaçará a saia, subirá ao tampo da mesa.
Insistirá no choro.
Era o que mais faltava.
Esperar que os dias nos ofereçam uma razão concreta para um acontecimento.

1 comentário em ‘5.º C’

  1. ZPires says:

    Há sempre um rio dentro de nós.

Comente