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outono-j

Três quartos de noite
Tinham adormecido separados na geografia da cama. Não partilharam palavras. Não experimentaram a intimidade de um beijo ou a violência do sexo. Estás acordada?+++++Ouviste-me, Alice, estás acordada?+++Sim, agora estou, que foi? +++Desculpa, não queria acordar-te, lamento, é só que Como não me querias acordar? Por favor Diogo, se não me quisesses acordar não tinhas insistido, [...] Ler mais – ‘Três quartos de noite’.
A festa de anos
Quando o grosso das formigas lhes chegaram, embeiçadas no químico das anteriores, as migalhas tinham já perdido a humidade e encarquilhavam no calor do sol e do cimento. Sabia que a ideia era apressada e que o entusiasmo se lhe firmava na teimosia de uma ilusão. Ainda na ida, durante a viagem, estou tão contente [...] Ler mais – ‘A festa de anos’.
Tu, que me lês
+++Olá, como estás?, gosto de te ver, ainda bem que apareces. Sim, é contigo que falo. Ainda bem que apareces. Espera, não te assustes, não vás já, perdoa-me o destempero de te roubar assim para este texto. Prometo que não contarei dos boxers aos coraçõezinhos que vestiste de propósito para ela. Da pinga de iogurte [...] Ler mais – ‘Tu, que me lês’.
10 minutos para o comboio
Estava atrasado, pensou que estava atrasado. Junto à estação uma vereda de velhos encostados à parede. Cumprimentaram-no quando ele desaguou devagar na bicicleta. Mostraram as mãos. Arribaram chapéus. Permitiram na boca palavras sem vértebras mas com sentido. Desmontou rijo e espantou o pó das calças. Bateu no chão as solas dos sapatos. O Zé tinha [...] Ler mais – ‘10 minutos para o comboio’.
Clara
+++Como um líquen, o Torel adere verde ao pino da encosta, acima do desgrenho das casas que trocam cotovelos e medem ombros de telhado. Recordo-me da voz da mãe, porquê isto agora, não sei, mas recordo-me da voz da mãe vindo do fundo das escadas, logo depois do som da porta a abrir, olha Clara, [...] Ler mais – ‘Clara’.
Pai herói
+++A mãe diz sempre que não demora, São só dez minutos, Alice, é o tempo de dares o biberão à boneca, mas eu já lhe conheço os minutos e sei que só regressa perto do jantar, às vezes até o paizinho chega primeiro, ele que trabalha tanto, Tão bonita que está hoje a minha princesinha, [...] Ler mais – ‘Pai herói’.
Despertar não oblíquo
+++O dia é calor aventado às janelas, esborratado no vidro, desmanchado pelas ripas dos estores. Acordo, eu desigual, alheio presente, tímpanos opacos à sereia do despertador, olhos que descaroçam os relógios de ponteiros. Um outro dia, numa manhã oblíqua, erguer-me-ia automático, robótico e transporia o tempo, inerte nos freios do uso e do rito – [...] Ler mais – ‘Despertar não oblíquo’.
Flores
+++Flores, já antes, agora de novo, flores, quem te as traz? gerberas, azáleas, quem te as traz? diz-me, conta-me, devolve-te do silêncio, só preciso da verdade, do presente da verdade, porque te custa? sabes-me, abranges-me, conheces que não sou de escândalos, porque mo escondes? se logo na madrugada das nossas núpcias, +++(a nossa noite, lembras-te [...] Ler mais – ‘Flores’.
Os homens das gaitas
+++Nos fígados da Beira, as terras levantam-se abruptas e lançam cerco ao horizonte enfurecidas de granito. Os que lá nascem, os que se criam, filhos de histórias de lobos e tragédias contadas em ovelhas, vivem no respeito à teimosia irrepetível das pedras e só nas suas tréguas ousam as árvores e sacham as hortas. +++O [...] Ler mais – ‘Os homens das gaitas’.
Fado
+++O vulto avança pelo parque embuçado de arbustos, ao centro, erguendo-se dos lírios e das tulipas, sobe para o banco e deixa vazar a gabardine. +++Despido sob esta noite coalhada, pasto de ecos e tremores, testemunho enfim as varizes das minhas próprias cavernas. Há tanto que erro por estes corredores de acabadas incertezas, esbarrando fielmente [...] Ler mais – ‘Fado’.