+++++Em Lisboa a noite nunca é negra e as estrelas ralas vezes são mais que os dedos de uma mão. Nas melhores, como as de hoje, e quão esparsas elas são, lá se encarde o céu de pobre escuro e mesmo assim não em absoluto, pois rente ao horizonte, aconchegada aos prédios aos andaimes aos [...] Ler mais – ‘Estrangeiro’.
Estavam para tempo repousados no poleiro do tê. Precisamente sentados no travessão. Equidistantes do prumo. Um para o outro na regra da balança. As noites de olhos abertos duravam como longas e longos eram os cabelos dos homens misteriosos que seguiam no trilho de narcisos verdade apenas nos sonhos das crianças. Tenho vontade de ti, [...] Ler mais – ‘Depois, os 30’.
+++++Mas porquê?, e eu sei lá porquê, Uma mulher como a Ângela!, a novidade talvez, o cansaço, a possibilidade, sim, a liberdade, E os teus filhos?, não sei, não sei nada, Porra David não se fode assim um casamento sem razão!, então fode-se porquê?, as razões, as explicações, mamamos nelas como cabritos, que diabo, porque [...] Ler mais – ‘Traição’.
Quando era menino quis ser padeiro, polícia, condutor de caterpillar e depois, mais tarde, quis ser feliz. E se os adultos me perguntavam «O que queres ser quando fores grande?» respondia sempre «Feliz, quero ser feliz» não compreendendo nunca o olhar de desilusão na sua cara quando lhes dizia apenas desejar ser feliz. Haverá alguma [...] Ler mais – ‘A felicidade explicada às crianças’.
O José vive num terceiro andar e é vizinho da Alice, esposo da Maria e pai do Guilherme e da Isabel. A Alice, um trombone de gestos e palavras, gosta de se plantar à varanda e cumprimentar quem passa. É como um relógio de cuco avariado: em vez das horas anuncia os segundos. Já o [...] Ler mais – ‘Elogio ao oleiro’.
+++Primeiro um quadrado, depois uma estrela, que logo se cansa de ser estrela e experimenta ser círculo, um círculo de copos, pequenos, baços e já vazios dançando no tampo da minha mesa +++— Era outro, por favor. +++— Outro… não lhe parece que já chega? +++— Porquê?, a si parece? +++e pousei-o no íntimo da [...] Ler mais – ‘A noite cá dentro’.
+++Raça de cão que não me larga o sono!, não bastava o Inverno a mastigar-me os ossos no húmido dos lençóis, tinha que vir este rafeiro apedrejar-me a noite de latidos. Terra do Demo esta +++«Tu vais ver Lucília, tu vais ver, aquilo é que é uma terra, oh se é!» +++seis meses garimpando frescura [...] Ler mais – ‘Segurança’.
+++A noite não te foi simpática, Amélia, um borrão de sangue pisado abraça-te o pescoço e elide o carreiro de sinais que te une a nuca à orla do peito. Tu não sabes, estás atada à vida por tubos que te enchem de ausências e esquecimentos, mas eu sim, sei, vejo. +++Gosto de estar aqui, [...] Ler mais – ‘Entre o som e a luz’.
+++Era um incómodo protuberante, como que uma dor romba ou densidade irregular, o polegar, notara-o há duas noites vencidas, nas tréguas de um sono esparso e tomara-o por dormência fugaz ou beijo inflamado de insecto, o polegar, a inquietação chegou ao acordar, quando o percebeu ainda existente: não necessariamente paralisante, não particularmente exuberante, mas permanente, [...] Ler mais – ‘As formigas’.
+++P +++Hoje, como todos os sábados sem perdão, acordei ao nascer das sete, quando a mãe apartou as cortinas e me deixou a luz à solta no quarto +++Pe +++ao meio-dia perfeito, depois de terminar os deveres da escola e fazer Senna ultrapassar Prost por entre as pantufas de meta, desci os degraus de carvalho [...] Ler mais – ‘Picasso e amor de pai’.
+++Não era um gabinete, ou uma esperança de guichet, mas uma mesa só num sovaco do escritório, Porque te morreram os olhos, Gabriel?, concedera-lha o sogro, no depois do divórcio, quando a dor lhe esfarelou o orgulho e vê-la lhe aparecia como única paz, Porque desististe de ti?, interrogava arquivos, arredondava cartas, marcava golos de [...] Ler mais – ‘Gabriel’.
+++Nasci no pó amarelo das pegadas de minha mãe, cheiros e gostos que a guerra rasurou, hoje não sou de Angola, Guiné ou Moçambique, hoje não sou sequer de África, o meu país é ser puta e preta +++— Aqui tem, o 53 +++o quarto é um sufoco a que se chega por escadas de [...] Ler mais – ‘Noite escura’.
+++O peito laranja do pisco arredondava-se vivo sobre a frese do tractor. A mira acariciava-o, virgem de morte. O tiro foi um súbito que lhe estilhaçou o bico e precipitou o sangue. +++«Nunca caçarás nem uma andorinha», atirava-lhe o pai sorrindo caninos. +++Perro no engenho e curto de paciência, jamais varara uma melra gorda de [...] Ler mais – ‘O Caçador’.
+++Era longe na tarde e o Sol quebrava-se em brilhos no dorso do mar. +++Levantou-se da toalha procurando gaivotas nos lamentos e desceu em passos de sussurro ao véu hesitante das ondas. +++Como pode a violência adormecida destas águas embalar tamanha promessa de paz? +++Sorriu sem os lábios fomes de vida. +++Avançou pela espuma rasgando [...] Ler mais – ‘A Praia’.