+++Surgiu minutos depois de mim, vindo do extremo da avenida, pousou a bengala, a mala e sentou-se no banco verde com o seu fato cinzento, correcto e antigo, Será que a Maria ainda tarda?, não o reconheço, não me lembro de o ver por aí, talvez tenha nascido cá e emigrado jovem, o candeeiro não [...] Ler mais – ‘Dois homens e a avenida’.
+++Anda, senta-te que a perdiz está daqui, não há perdiz de escabeche como a da dona Sandra, é ou não é ti Martins? Há anos que aqui venho de propósito, dantes, quando era um escritor famoso, comia à cozinha com as meninas, para que não me importunassem o varejar dos olhares e o zunir dos [...] Ler mais – ‘Da arte e da vida’.
+++Acabou de passar, talvez venha aí outro, ainda tenho meia hora, mas que azar, se não tivesse voltado atrás para buscar o relógio, se o elevador não estivesse tomado, para que raio precisava hoje do relógio, ainda estou indisposto, o nestum feito com café não foi boa ideia, julguei que o tivesse vomitado todo mas [...] Ler mais – ‘A manhã e o surto’.
+++No juntar das seis, os homens principiavam dos véus húmidos da manhã e abriam o portão, sacudindo dos casacos o sarro do frio. Vinham das terras em volta, de aquém e além do viso da serra, por carreiros calcados no mato, para acudir ao primo, ao cunhado, ao vizinho, aumentando braços ao trabalho. +++Ao chegar [...] Ler mais – ‘Impreteríveis de Novembro’.
+++O meu nome é João Rui Afonso e uso bigode. Por vezes penso em mim como um fora da lei mexicano e quando me olho no espelho, ou nas montras, ou nos vidros dos carros, oiço um bandolim enamorado e vejo o sol entardecer nas montanhas do deserto: Pancho Villa de blusão motoqueiro e olhos [...] Ler mais – ‘Monólogo do farsante’.
— Não achas esquisito estarmos aqui, assim, com tua irmã ali a olhar? — Como…? — Se não te sentes incomodada por ter tua irmã ali atrás, sentada a olhar para nós? — Que pergunta, Duarte, até parece que a levas a mal, que não gostas dela. — Oh Ana… não é isso… sei lá, [...] Ler mais – ‘Irmãs’.
+++Despertou ainda antes do relógio, quando os lábios viçosos da manhã lhe afagaram os pêlos da orelha e lhe confidenciaram as vozes dos primeiros pássaros, os nomes das primeiras cores e as gargalhadas das negras esbracejando crioulo na paragem do autocarro. Gostava de acordar de assim, espreguiçou os olhos, de se imaginar no começo do [...] Ler mais – ‘Partir’.
+++Foi junto à noite, no resolver do sol, que ao ouvir-te chegar acompanhado pelo barulho do carro, confirmei na mesa o asseio dos copos e fui ao teu encontro, atravessando o terraço de pés descalços sobre o crespo do chão. +++São já férteis os anos que separam esta da última vez que nos vimos. Por [...] Ler mais – ‘Dois copos de vinho’.
+++A tarde avançava a passo pelo feriado, em gestos largos, costumeiros, semeava leves os raios de sol. Sentei-me na esplanada e cruzei a perna, chamei o empregado e pedi uma cerveja – bela, gelada: no fundo, ao erguê-la aos lábios, uma nódoa ilegível depois das ruínas brancas de espuma. +++Está na hora…está na hora…do governo [...] Ler mais – ‘Quis saber quem sou, o que faço aqui…’.
Évora no ventre de Agosto, o calor, mesmo de madrugada, o calor, pesado como a mão severa de um pai. Está sitiada a cidade, há já dias que os fogos lhe correm livres em volta, que o ar se arrasta pelas ruas exausto de fumo, faúlhas e sereias, que edemas púrpura inflamam ao longe o [...] Ler mais – ‘Vergílio’.
Gostava de sentir o murro do vento agarrado às saias do camião, o cabelo que se lhe revolvia em ervas, o corpo teso como um tronco de músculos carcódias e nós. Gostava dos humores do rio cortejando às escondidas os negrumes da noite e dos semáforos inúteis disparando luzes como xerifes das avenidas. Gostava do [...] Ler mais – ‘O escritor’.
+++Conheci o Bruno na promessa dos dezoito, quando me surgiu no consultório amparando o corpo quebrado de dúvidas +++Ajude-me +++carregava um tumor entalado no cérebro, uma grainha, pouco menos que um caroço de azeitona, benigno mas oculto ao engenho do bisturi +++Vou morrer? +++o volume hibernou pelos anos, era seu médico descobri-me seu amigo, vi-o [...] Ler mais – ‘A ordem’.
+++O serão morre com as brasas que se põem. O Inverno esgravata nas janelas. A água corre pelas bermas e engasga as sarjetas com as roupas velhas do Outono. +++Na poltrona, os pés amigados em frente à lareira, as mãos marinando no colo, a Matilde dorme. Cuidaram-na bem os anos. Mesmo agora, sobretudo agora, aos [...] Ler mais – ‘O calor nos pés’.