Daruma
por Miguel-Manso.
Esta superstição japonesa é semelhante, em sentido contrário, à superstição portuguesa. Utiliza um boneco — o Daruma-san — uma espécie de cabeça-cabaça com os dois olhos brancos, bigode e um pequeno nariz. É um talismã encarnado para pedir desejos. Quem o faz tem de pintar um dos olhos e esperar que o desejo se concretize para assim pintar o outro. Ao Daruma, que não podia ver, é-lhe apresentado deste modo o mundo visual que desconhecia, primeiro com um olho só, depois, caso realize o pedido, com a visão total. E é durante o período de indecisão, em que o boneco é caolho, que esta superstição japonesa encontra a superstição portuguesa, que lhe é inversa. Ao contrário, usamos nós um outro boneco — o Camões — que no início tinha os dois olhos pintados mas que, ao pedirmos um desejo (nacional) vazámos um. Decorre também daí um período de espera e adiamento concordantes. O que pedimos não aconteceu ainda (acontecerá?). Japoneses e portugueses supersticiosos queimarão no fim as suas mascotes consumadas (um Daruma esbugalhado e um Camões inteiramente cego) na fogueira do ano novo.

Há, de facto, um problema com os que, desejando, apenas pedem: uns arriscam-se a ficar com os olhos em bico e os outros, por não fazer, a ficar a olhar para dentro, não conseguindo sequer olhar por dentro.