Foge, coelho, foge
por Guilherme José Pires.
O vilão mais felino chegara à cidade. Era sabido que mais hora menos hora nos morderia os calcanhares, o bicho cansado e faminto à procura do saque fácil às casas que têm a lâmina na jugular, para refazer a sua contínua fortuna, e as nossas sombras sem revólver nem coldre nem arte para fugir.
Nos jornais encontrámos, meses a fio, os detalhes do seu traço, da sua mão, de como se impunha no mundo caminhando fino e alto pelos palacetes dos condes decrépitos, pedindo que lhe abrissem os portões dos hospícios carentes do alimento necessário para cuidar da alma dos que por lá ainda se escondiam, entrando qual mestre de xadrez nas casas modestas de quem teve sempre pouco, para abrir gavetas, enfiar o nariz na roupa engomada, esventrar cartas em voz miúda, cavar fundo nos computadores e dissecar estantes. Alimentar-se de vidas alheias. Nesse dia maldito, conduzido em Jaguar de prata através da estrada mais fria que nos ligava ao resto da terra, o vilão chegara à cidade para que lhe pedíssemos desculpa enquanto depositávamos na sua mão direita, com vergonha, a chave do nosso lar.
Recordo-me da maçaneta a girar e do perfil dele entrando por nós de calça vincada, os óculos de armações em círculo presos no cimo de um nariz interminável, ainda ontem prendemos o Vende-se nas grades da varanda (eu não pensava senão na sorte que nos calhara) e hoje cai-nos este homem de rugas fundas, existe uma hora errada para tudo. A rapariga da imobiliária não nos quis mal, qualquer um gosta de acompanhar pessoas deste calibre, sublinhar o dia no portefólio da empresa. Ele entrou e pôs-se perante os nossos sorrisos nas fotografias, e nós encolhidos nas cadeiras de vime, olhe que somos gente simples, senhor, vivemos sem vertigem, os nossos dias são iguais aos dias dos outros, e a resposta de mão levantada, permanece, silêncio, não há nada para ser dito, vocês falharam e agora partirão para falhar melhor noutro lugar, e as nossas sombras frouxas nos bolsos a procurar as chaves, faça-nos pouco feios, por favor, nada escreva da loiça por lavar e das nossas frontes estagnadas, faça-nos pouco feios, obrigado, muito obrigado.
Agora, nada temos para mostrar para além destas notas e da carteira. Comprou-nos o lar, não quis apenas a casa.
Haverá vilão mais felino do que um escritor endinheirado à procura de palavras?

Resposta:
Claro que há – as palavras endinheiradas à procura de escritor.