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História daninha de Natal

por Jorge Colaço.

+++Contrariado. Aceitara, contrariado. Escolhendo, contrariado, uma tigela – branca – e uma faca de lâmina eficaz, procurou uma garrafa de aguardente. O peru fora-lhe oferecido pelos vizinhos, velhos amigos da família. Como poderia recusar? Pusera-o no quintal, onde realmente houvera um galinheiro.
+++A princípio soubera-lhe bem regressar. Agradara-lhe a ideia do campo. Equipara-se, botas grossas, casacão encerado, boné. Modernizara a casa. Acabara mesmo por trocar o carro por um jipe, mais adaptado à nova condição.
+++A agricultura estivera nos seus planos. Havia um pomar e uma horta – de que os vizinhos cuidavam e usufruíam. Discretos, como sempre, foram-lhe deixando caminho livre. Mas os ciclos da natureza eram-lhe estranhos. O pomar e a horta entristeceram. Agora, era contrariado que, à sexta-feira à noite, se fazia ao caminho. E o sentimento de contrariedade não o abandonava todo o fim-de-semana.
+++Cabia-lhe matar o peru do Natal. Vira a avó e a mãe matarem galinhas e perus. Passarem o suave fio afiado da faca pelo pescoço depenado do bicho, repuxando-lhe a cabeça com mão firme e aquietando-lhe o corpo entre as pernas, e deixarem o sangue – para a cabidela – escorrer na tigela. Mas primeiro tinha de o embebedar.
+++O peru olhou-o atentamente, alternando o olho com que o fitava. Grugulejou e tornou a grugulejar, dirigindo-se-lhe numa língua ininteligível do princípio dos tempos. Contrariado, Justino prendeu-o, abriu-lhe o bico e, com um estremecimento íntimo, emborcou-lhe a água ardente pela goela. Solto, sacudiu-se sem elegância, lançando olhares altivos e grugulejando repetidamente. Depois aproximou-se, dolente. Justino estendeu-lhe a garrafa. Reconsiderando, desrolhou-a e meteu-a ele à boca. Só depois disso serviu ao animal uma segunda dose, ele próprio se servindo de novo em seguida. E, sem nunca se terem deixado de fitar, grugulejaram ambos, como dois condenados, até à última gota.

2 comentários em ‘História daninha de Natal’

  1. ZPires says:

    Desculpa quase impoluta:
    beba o carrasco da mesma cicuta.

  2. Anonymous says:

    De como a inabilidade rural de um cosmopolita é a sorte de um perú já alegre a caminho da eternidade…

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