Instantes instintos do pássaro bisnau
por José Dias Pires.
Desesperou no ninho pendurado às lâminas da escarpa e, temporã, deixou-se levar pelo vento. Caiu de bico e desamparada sobre a pedra que espreitava no pousio de cinza.
Dizem que aquela águia não mais cresceu.
O bombeiro afagou o pássaro fumegante e levou-o para oferta.
Sobreviveram.
Teimoso, insistente, amigo, o cego transformou-o em pássaro-guia.
Engraxou-o de preto e passou pasta de polir no bico amarelado.
Fizeram-se ao mundo.
Pendurado nas telas coçadas do ombro onde morava, aprendeu a repetir a melodia da canção que, olhando o pássaro bisnau com os ouvidos, era cantada a infinito: Blackbird singing in the dead of night take these sunken eyes and learn to see. All your life you were only waiting for this moment to be free…
Rodopiavam.
A melodia, entre bico e boca, envolvia o espaço até ao chapéu colocado em desespera sobre a calçada.
O cego sorria e, como se visse, desolhava o seu amigo.
E então, o pássaro bisnau deixava-se levar, asas abertas, até à fronteira do chapéu.
As moedas caíam em cata (dupla, tripla) catadupa.
Escondendo a cabeça sobre a asa, a águia sorria nos instantes instintos do pássaro bisnau.
Também nós, os invejosos.

Muito bonita e espirituosa, apeteceu-me sentar-me no outro ombro e assobiar ao infinito, como o pássaro bisnau. Obrigado.
Também nós, invejosos, sabemos que uma águia nunca se rende. E, quando chega o momento de ser livre, nem que seja travestida de pássaro bisnau, é capaz de voar até ao infinito. Já que mais não seja, o da nossa sempre adiada canção.
Abraço!
Luís