João
Nascido em Castelo Branco,
é coleccionador de porquês
e amador de palavras.
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Se me imagino sentado no pó branco da lua, os pés chapinhando na ria láctea, peixes cometa mordiscando-me os dedos, não vejo ao fundo um berlinde de profundos azuis, mas um novelo apertado de letras.
Miauu, cumprimenta-me o gato Tempo que passa em pegadas de estrela. Vem do seu buraco escuro, de bigodes na vozearia do novelo; vem desenrolar-nos as vidas, emaranhá-las nas antenas dos satélites. Lá estão elas, as palavras, como roupa penduradas num estendal, ossos de letras e carne de sons, farrapos coloridos de nós.
O Tempo que brinca e puxa e corre, que descose nas garras os contos alinhavados do que foi e faz dançar num remoinho o nevoeiro dos capítulos presentes. O Tempo que por fim pára e contempla, lambendo o pêlo da pata direita, a perfeição inatingível das histórias do futuro.
Mergulho da lua para o silêncio da luz, em direcção ao trampolim das frases cruzadas. Sinto as palavras nas plantas dos pés, agudas mas constantes. E a cada salto e pirueta há algumas que se soltam e desprendem, pairando como plumas até ao chão desta página.
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