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O homem

por Pedro Vieira.

+++O homem que é uma caneta BIC está sentado no banco de madeira sem fazer peso que se veja, embora ainda seja nutrido de carnes ao fim de tantos anos aos quais já perdeu o conto, ossos carne memórias vida bilhetes de autocarro tanto lastro e no entanto sem fazer peso que se meça, o olhar parado — não o estamos todos — a cabeça noutro sítio que não naquele jardim de frente para o qual o homem que é uma caneta BIC abre e fecha um metro. Daqueles de medir, mesmo à séria, que se recolhe como uma enguia se não o travamos, se não o seguramos com a ponta dos dedos, estica-se e mede-se a vida como se quer, ponto. O homem que é uma caneta BIC já teve uma existência de escrita fina, glabra, cheia de ademanes e salamaleques, recheada de respeito, poses a gosto ou consoante as necessidades de quem vê de cima, há momentos em que todos os outros nos parecem vistos a partir de um plano picado, os da escrita fina aves de rapina, rima involuntária, os da escrita normal, enfim. O homem que é uma caneta BIC estende e recolhe o metro de frente para o jardim zzzzzzzt. Há doze centímetros o homem que é uma caneta BIC passou a ser mais um dos reduzidos à escrita normal, com o corpo transparente, alegrias e misérias à vista, tudo tão diferente de quando a opacidade laranja lhe permitia voar em círculos sobre a normalidade dos outros até ao momento em escolhia as vítimas e descia a pique com as garras, a escrita, de fora zzzzzzzt. O homem que é uma caneta BIC já não tem carga. Estoirou no bolso de terceiros, mancha de tinta envergonhada, velha, sem préstimo. O homem que é, era. Ponto.

1 comentário em ‘O homem’

  1. Zpires says:

    Ponto? Pronto. Vistam-se os terceiros de mata borrão.

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