O nascer nunca se faz tarde
por Luís de Melo Jerónimo.
Era uma vez, outra vez, tanta vez que Vicente se adivinhava a escrever. A palavra a querer começar. O desatino do sentido a crescer. A frase que o ultrapassava. Sempre. Vicente corria atrás, a coleccionar ecos, a cinza dos instantes que por ele decidiam num relâmpago. Do papel se fazia tornado. Dos escombros uma sentença.
— Escreve-me como quem dita o acaso.
Vicente ficava toldado, do avesso. Às avessas com o palavrear em atropelo.
— A ver se é desta que te acertas com o destino, Vicente.
A mão tremia-lhe num sobressalto descrente, perdido. Sem vislumbrar um começo que agarrasse o seu azul tinta de escrever.
— Não te demores, Vicente. Depressa te persigo, mais depressa te esqueço.
Deixou-se rir, enternecido. Sabia que era um engano, que o regresso falava sempre mais alto.
— Não me desafies, sabes que perdes. Uma palavra e não serás salvo.
Mudo de medo, a recear a verdade, Vicente pedia o calar da noite, um serenar mínimo que o deixasse ser.
— Esgota o silêncio que te entretece.
Era uma vez, outra vez, a sua vez que se adivinhava. A oportunidade a arrepiar caminho. A esperança de se livrar do sentido. A possibilidade de redenção. Entusiasmado pela vontade, guiado pelo espanto senhor de si, Vicente descobria-se no encanto que não pensa, a acreditar no desejo que tudo vê.
— Aprende a confiar no teu instinto.
De sentidos afinados pela doce certeza que se definia ao largo, Vicente pressentia o compasso da glória.
— Faz de cada palavra um milagre.
Vicente queria crer que era possível. Que no amanhecer desalinhado uma brisa descansada se faria prometer.
— Não há alivio para quem sempre suspira. A beleza chega sempre tarde demais.
— O nascer nunca se faz tarde.

A beleza chega sempre a tempo. Parabéns.
Uma pérola, imagino que não seja a primeira, esta já viu a luz do dia. que bom. Abram-se as conchas do teu talento sem pressa se não tiveres pressa mas com vontade isso sim que é crime manteres-te na sombra.Não, Beleza, não chegas nunca tarde quando o que a luz reflete uma pérola.
A escrita é como a nascente do rio: ou se transforma em corrente ou cai, desamparada, no vazio.
Interessante.