O nome do Tiago
por Guilherme José Pires.
Tenho a Lena esquecida dentro de um gavetão para o futuro na casa da minha infância.
Na BASF de plástico preto e fita cor-de-laranja (eu não tinha sequer dez anos) fui gravando aos tropeções os bemóis, os contratempos, as sílabas em piano, encantado pelo timbre doce do feminino, o mistério longínquo, mais vasto ainda do que os enigmas do cosmos.
Trago-a esquecida, mas hoje a Lena sorriu-me, doce e gloriosa como nos dias da minha educação sentimental, quando a guardava entre relatos de futebol e os discos pedidos das terras altas de onde cresci. Ao reencontrá-la, pendente e rasgada numa parede de rua, regressei num súbito à manhã em que vi (para não mais ver) o Tiago, quieto entre as notícias rasteiras do mundo, no quiosque, vendia jornais. Fitei-lhe o lenço azul estendido na cabeça para cobrir o cabelo ausente, só depois desejei que o dia lhe fosse bom. Recordámos as guerras que travámos, os dias decisivos na praceta com os tubos saqueados nas obras embargadas e as bagas secas raptadas às árvores, ao ataque nas bicicletas da nossa infância. No regresso desse Verão (o torpor na voz do Tiago) a rua até casa custou-lhe tanto que a bicicleta de ferro não tornaria a sair da sombra. Era o sangue traidor a planear o lenço azul estendido na cabeça.
Quis mostrar-lhe a voz da Lena. Escrevi a carta, lambi o envelope, prometi que regressaria ao quiosque, se a memória não se ausentasse.
Imagino o Tiago na sala de espera com as horas esvaindo-se por entre os dedos: sempre que ele vai daqui até ali resta no chão um carreiro de tempo.
Agora, nos concertos dentro da minha BASF preta, a Lena ergue as mãos e sussurra mistérios femininos para o tecto quando o amor nela se deixa cantar, em especial se convoca harpas para clamar vingança de um passado tão torto e com tanta pontaria. O Tiago faria o mesmo.
Ainda o gavetão educa, ainda o menino aprende, não tem sequer trinta anos e já não recorda o nome do Tiago. Seria Daniel?
É claro que a Lena da cassete não existe. Mas para que serve a verdade?

Ou porque não lhe deram outra hipótese, a liberdade para escolher.
Quem disse que não existe? A Lena pendurada na parede (com uma guitarra como cão de companhia),beatnick, esconde-se numa salada de frutas, afunda-se na atlântida e o seu herói (Tiago ou Daniel nome de tiago) está gritado (e morto de canção) numa fita BASF, porque quis outra heroína.