Pudor
por Guilherme José Pires.
Aprendeu cedo a maquilhar o espírito para se mostrar às amigas, ao pai e aos professores: tinha dez anitos e um cavalo de pau. Quando cresceu, decidiu largar o ninho e galopar caminhos, queria uma pele mais pérola. Fez dinheiros e virou os vinte com peito de mármore.
Na década seguinte treparia os abismos do êxito, ordenando que lhe costurassem camisas cintadas e saias que nem luvas: aprendera ligeira a maquilhar os talentos para se ocultar às amigas, aos clientes e aos patrões.
Foi no Outono que ele a encontrou entre as árvores frias de uma tarde por nascer, no jardim, em retiro, longe da cidade. Seguiu-lhe os passos enquanto digeria o murro, e ao dobrar do caminho agarrou-lhe o pulso, soltou a pergunta.
Nessa noite, a pedido alheio, ela desmanchou o espírito, apagou a subtileza que desenhara na curva dos olhos, lavou das unhas a madrepérola e revelou a pele desenlaçando-a por dentro das vestes de algodão.
Aceitou adormecer cinzenta, de feições inacabadas e angulares, o pudor.
Entre os lençóis, para além dela apenas um eco indesejado: o homem, ansioso pelo deserto que se estendia a seu lado, respirava
— Como te invejo, meu amor.
Ela pendurou a dúvida no verbo, no pronome, no substantivo
— Dorme tranquilo, querido.
e desligou o candeeiro.

Sim,muito bom.
Será a mulher culpada de algo? Do pudor? O que é o pudor?
Muito Bom.
O Carlos Paião pediu que escrevesse isto: Sim, pó-de-arroz,rosa é, mulher o pôs e um homem vai nas cenas:Eva e Adão outra vez.