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Redundância

por Margarida Ferra.

Enquanto via um documentário sobre raposas e animais de estimação — a primeira televisão, analógica, ainda funcionava, mesmo sem comando, ainda herteziana — percebeu quase tudo. Dizia-se que as raposas têm a independência dos gatos e a lealdade dos cães. Podia ter-se lembrado do conto da mulher que se transforma em raposa, depois de comprar um casaco com cheques pré-datados. Podia ter pensado na literatura portuguesa e no regresso sempre aguardado, no novo romance da voz feminina, que tinha desiludido leitores. Todos os romances são regressos aguardados, mesmo os primeiros. Podia ter percebido que todos os regressos desiludem. Não. Muitos regressos desiludem, por exemplo: o regresso a casa desilude no segundo em que se torna estado e acaba o reconhecimento. Podia ter usado antes o tempo e o modo de «poderia» — em Portugal, presente condicional; no Brasil, futuro do pretérito simples. (Preferia Portugal.) Percebeu quase tudo e não chegava para um poema ou sequer sms. Já só era capaz fazer minutas de emails e press releases. Nada sobrava ao fim dos dias. Não havia palavras normais, muito menos palavras exactas. Não havia jardins para passear raposas. Era uma raposa que se comportava como um cão e como um gato, consoante o par. Era redundante como um cão, silenciosa como um gato. Era impossível como uma raposa. Odiava às sextas-feiras todos os condicionais, o som de talheres e loiça em restaurantes, balões cor-de-rosa ou azuis, e nunca haveria de decorar o número dos pés dos filhos, se os tivesse. Poderia viver em paz, se se entregasse a essa tarefa e aceitasse, pacientemente, que o mundo é redundante. Não tinha uma caixa em forma de coração, tinha um coração em forma de caixa. Hermético, pequeno, apagado, apenas um músculo. Era uma raposa vacinada, tinha uma trela e um açaime.

1 comentário em ‘Redundância’

  1. ZPires says:

    Raposarapaossoparaaprosa
    Abundânciaredundante = Redundânciaabundante
    Sobraapoesiaparaaraposabravia

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